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Por que a maioria das empresas ainda não vê valor na IA

A maioria das empresas ainda não vê valor da IA porque trata o tema como tecnologia, quando o maior obstáculo está em pessoas e processos. As empresas que colhem resultado escolhem poucas apostas, redesenham o trabalho, medem o antes e o depois e cobram o número na diretoria.

Por Bruno Stefani · · 5 min de leitura

O valor da IA nas empresas ainda é exceção, não regra. Isso não acontece porque a tecnologia é fraca. Acontece porque a maioria das empresas a trata como um software para instalar, quando ela pede uma mudança na forma de trabalhar.

Este artigo explica onde o valor se perde e o que os líderes que colhem resultado fazem de diferente.

O que dizem os dados sobre o valor da IA nas empresas?

Os dados mostram que a maioria ainda não consegue provar ganho concreto. A pesquisa Where's the Value in AI?, do BCG (2024), indica que 74% das empresas ainda não mostram valor tangível com IA.

O mesmo estudo traz o dado mais útil para quem decide: cerca de 70% do desafio está em pessoas e processos. Algoritmos e tecnologia respondem pela menor parte. Ou seja, comprar uma ferramenta melhor resolve pouco se a forma de trabalhar continuar igual.

O que significa "valor tangível" com IA?

Valor tangível com IA é um ganho que aparece nos números da operação: menos horas, menos erros, prazos menores, mais receita ou menos perdas. Não é a sensação de que as pessoas estão mais produtivas.

Essa distinção importa. Muitas empresas relatam entusiasmo com assistentes de texto. As pessoas escrevem e-mails mais rápido, resumem reuniões. É útil, mas raramente muda o resultado da empresa, porque o tempo economizado se dilui no dia.

O valor aparece quando um processo inteiro muda. Por exemplo, quando a conciliação de notas fiscais deixa de tomar uma semana do fechamento e passa a tomar um dia.

Onde o valor se perde?

O valor se perde em cinco pontos, quase sempre ligados a pessoas e processos. A tabela mostra cada um e o efeito.

Onde travaO que aconteceEfeito
Escolha do problemaProjetos começam pela ferramenta, não por uma dor realSolução sem uso
DispersãoMuitos testes pequenos, nenhum prioritárioNada chega à operação
Processo intocadoA IA é colocada sobre o fluxo antigoGanho pequeno ou nulo
Medição ausenteNinguém mediu o antesImpossível provar resultado
Adoção fracaEquipe não confia, não foi treinada ou teme perder o cargoUso cai após o lançamento

Repare que só um desses pontos tem a ver com tecnologia em sentido estrito. Os outros são decisões de gestão.

Por que colocar IA sobre o processo antigo não funciona?

Porque o processo antigo foi desenhado para pessoas fazendo tudo à mão. Colocar IA em cima dele acelera uma etapa e deixa as outras como estavam.

Imagine uma área de compras que usa IA para escrever e-mails de cotação. Se a aprovação continua passando por três pessoas e o lançamento no ERP continua manual, o prazo total quase não muda. O gargalo só mudou de lugar.

Redesenhar o processo significa perguntar: se um agente de IA faz a leitura, a comparação e o lançamento, quais etapas ainda precisam de uma pessoa? Normalmente sobra a decisão e a exceção. O resto pode ser revisto.

Peter Drucker, em O Gestor Eficaz, separa eficiência de eficácia: fazer as coisas direito não basta, é preciso fazer as coisas certas. Com IA, essa diferença fica muito concreta.

O que os líderes que colhem valor fazem de diferente?

Eles tratam a IA como mudança de operação, com foco, dono e número. Na prática, seguem cinco hábitos.

  1. Escolhem poucas apostas. Duas ou três frentes com impacto real, em vez de dezenas de testes.
  2. Redesenham o trabalho. Reveem o processo de ponta a ponta, não só uma etapa.
  3. Medem antes de começar. Registram a linha de base e definem a meta do piloto.
  4. Investem em pessoas. Treinam no fluxo real de trabalho, explicam o que muda e escolhem campeões internos.
  5. Cobram o número na diretoria. O resultado da IA entra na pauta da reunião de gestão, como qualquer outro indicador.

Nenhum desses hábitos exige tecnologia mais avançada. Exige disciplina de gestão.

Como sair do teste e chegar ao valor?

O caminho é transformar um teste em piloto com meta, e o piloto em operação. Cada etapa tem um critério claro de passagem.

  • Teste: mostra que a IA consegue fazer a tarefa. Critério: qualidade aceitável numa amostra real.
  • Piloto: mostra que o processo inteiro melhora. Critério: meta atingida num prazo definido, com usuários reais.
  • Operação: mostra que o ganho se sustenta. Critério: uso contínuo, custo previsível e dono acompanhando o indicador.

Muitas empresas param na primeira etapa. Comemoram que a IA "funciona" e não seguem para o piloto. Para entender esse padrão, veja por que projetos de IA param no piloto.

Qual o papel da diretoria?

A diretoria define se a IA será tratada como projeto de tecnologia ou como prioridade de negócio. Essa escolha pesa mais do que qualquer ferramenta.

Quando a direção patrocina, escolhe as apostas e pede o número, as áreas se organizam. Quando a direção delega tudo e só pergunta "estamos usando IA?", a resposta será sim, e o valor continuará invisível. O papel da liderança é detalhado em o papel do CEO na transformação com IA.

O que fazer a partir de amanhã?

Comece revendo o que já existe. A maioria das empresas tem iniciativas de IA espalhadas, e parte delas pode virar valor com ajustes simples.

  1. Liste todas as iniciativas de IA em andamento.
  2. Para cada uma, pergunte: qual processo ela muda e qual número deveria mexer?
  3. Encerre as que não têm resposta para essas perguntas.
  4. Escolha uma ou duas para virar piloto com meta, dono e prazo.
  5. Coloque o indicador na pauta da diretoria.

É esse tipo de recorte que a Horia faz no diagnóstico: separar o que gera valor do que só gera atividade.

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para a IA gerar valor numa empresa?

Um piloto bem escolhido pode mostrar ganho medido em até 90 dias. O valor em escala depende de repetir o método em outros processos. O prazo cresce quando a empresa pula a medição inicial ou espalha esforço em muitas frentes.

Assistentes como ChatGPT geram valor para a empresa?

Geram ganhos individuais, como escrever ou resumir mais rápido. Mas esses ganhos raramente aparecem nos números da empresa, porque o tempo economizado se dilui. O valor maior vem de mudar processos inteiros com agentes integrados aos sistemas.

Como provar o valor da IA para o conselho ou para os sócios?

Com linha de base e comparação. Meça o processo antes do piloto, defina a meta e apresente o resultado nos mesmos indicadores. Horas, prazo, erros e custo convencem mais do que relatos de uso.

O problema pode ser a escolha da ferramenta errada?

Pode, mas é menos comum do que parece. O BCG indica que cerca de 70% do desafio está em pessoas e processos. Antes de trocar de ferramenta, vale checar se o processo foi redesenhado e se a equipe adotou a solução.

Bruno Stefani · Bruno Stefani é sócio da Horia. Trabalha com estratégia e transformação de negócios: onde a IA gera valor, como decidir os investimentos e como conduzir a mudança nas equipes. Outros artigos

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